A nível global, estima-se que sejam descartadas cerca de 4,5 biliões de beatas de cigarro por ano. Além de demorarem até 15 anos a decompor-se e libertarem substâncias tóxicas (como nicotina e metais pesados), existe um enorme desconhecimento sobre o seu impacto: estudos sobre o comportamento dos fumadores revelam que quase metade (47%) acredita erradamente que as beatas são biodegradáveis.
A jovem figueirense Salomé Mateus, no âmbito da sua tese de mestrado em Inžinirsko oblikovanje izdelkov (Engenharia de Design de Produtos, realizada na Faculdade de Engenharia, Universidade de Maribor, na Eslovénia), recolheu cerca de 500 beatas de cigarro pós-consumo em espaços públicos. O objetivo foi desenvolver e testar um processo prático de separação, trituração e limpeza profunda do acetato de celulose dos filtros, transformando-o num material funcional de isolamento térmico e acústico.
Através de testes laboratoriais rigorosos (incluindo ATR-FTIR, ensaios de humidade, termogravimetria, calorimetria e medições de condutividade térmica), “comprovei que a estrutura química e o comportamento térmico do acetato de celulose se mantêm praticamente intactos após a reciclagem. O material reciclado alcançou valores de condutividade térmica muito promissores (0,084–0,089 W/(m·K)). Para além da análise técnica do material, o projeto explorou a sua aplicação em produtos, como o CelluFloor (um pavimento flutuante multicamada com isolamento integrado) e caixas térmicas portáteis, demonstrando como a engenharia de design e a economia circular podem transformar resíduos num produto de valor acrescentado”, referiu a’ O Figueirense”.
O projeto começou de forma gradual em 2025 no âmbito de uma unidade curricular, tendo sido posteriormente expandido e aprofundado para esta tese de mestrado. Trata-se de um trabalho de investigação contínuo, sendo que novos testes laboratoriais e desenvolvimentos estão a ser realizados. A motivação para partilhar este trabalho “surge da vontade de criar consciencialização sobre um resíduo muito presente nas nossas ruas e praias, e de inspirar os jovens de Figueira da Foz, mostrando que a curiosidade científica e o talento local podem ir longe e contribuir para soluções sustentáveis globais”, referiu.






